Tuesday, October 18, 2016

MEIA-NOITE E VINTE - DANIEL GALERA







Fala, galerinha do Youtube!

Após mais de cinco anos, atualizo o blog. Retirara-me com o objetivo de zerar Battletoads de Nes. Embora tenha me dedicado quase exclusivamente a isto, fracassei.

Aprendi muito sobre minhas limitações como gamer e pessoa no geral, sobre teimosia e incapacidade de desistir de atividades para as quais não tenho o talento que penso ou desejo ter. Aprendi também sobre a implacabilidade da vida, que, admito, não passa do outro lado da moeda da inaptidão incapacitante sugerida há pouco. Battletoads é uma metáfora para a vida. Você vai se foder e pronto.





O retorno à vida normal tem sido penoso. Voltei a trabalhar e a ser rejeitado por mulheres na night paulistana. Esporadicamente, acordo desesperado no meio da noite, de pesadelos com ratazanas gigantes, speeders que se chocam violentamente contra paredes que não deveriam estar lá, e cobras coloridas que saem da parede e somem para você pular em outra na hora exata, para não ter de começar tudo de novo.

Em parte deste tempo, é verdade, dediquei-me ao meu romance de estreia, que não vai estrear porque, por alguma razão incompreensível, o mundo não percebe minha genialidade. Mas isso é assunto para outra oportunidade.






Voltei a ler livros e o primeiro que me fez querer escrever de novo no blog foi o Meia Noite e Vinte, de Daniel Galera (Companhia das Letras). Não só o livro, mas também as primeiras resenhas. O retorno à internet devolveu-me um anseio antigo, de me exibir tendo como pretexto resenhar um livro. Quero seguir o exemplo dos resenhadores de internet, e aproveitar a oportunidade para falar não do livro, mas de mim, fazendo comparações e comentários a partir da minha bagagem que mostrem cultura e erudição.

Mas, infelizmente, meu repertório não é grande. Jogar Nintendo, certamente, não ajudou. Então, simplesmente direi o que achei do livro. Com spoilers.

O comentário mais frequente é que se trataria de um romance geracional. Mas não acho que foi escrito para ter esta representatividade específica. O livro é sobre pessoas com nível sociocultural acima da média, intelectualizadas, que estudam, pensam e escrevem. Aspectos específicos demais para representarem toda uma geração. No entanto, todos são essencialmente humanos, parecem vivos e suas questões podem ressonar em leitores de diversas gerações.

Parece haver sempre a necessidade de encontrar o “porta-voz” de uma geração. Tentam catalogar os autores jovens, porque a informação catalogada se passa facilmente por conhecimento, e fica parecendo que o resenhador manja de literatura.

Tento evitar o momento mais inútil, de encheção de linguiça, das resenhas: o resumo da trama e dos personagens. Enfim, quatro amigos publicavam um e-zine em Porto Alegre em 1999 e, em 2014, o único deles que se tornara escritor é morto em um assalto. Os outros três se reencontram e meio que tentam viver a vida em um mundo que pode ou não estar irrecuperavelmente fodido.





As resenhas vão falar sobre os anseios desta geração pós-moderna que pegou o começo da internet e moldou sua produção de conteúdo, e vão falar sobre como a vida adulta deles estaria em descompasso com o deslumbramento da juventude. Mas, para mim, isso não é exclusividade desta geração, mas sim um conflito universal que, por acaso, foi retratado nesta época. Assim, o livro tem referências a fatos recentes, como os protestos de 2013 e o uso de celulares e mídias sociais, que trazem verossimilhança.

Para mim, as questões mais importantes tratadas no livro são a afetividade e, em especial, o sexo. Ele está muito presente no relato de todos os personagens. É a questão mais relevante tocada pelo livro. Não me parece que a obra diga algo a uma geração específica, mas sim a uma faixa etária. Os personagens estão no fim dos 30 e início dos 40 anos. São pessoas às voltas de um equilíbrio entre vigor e experiência sexual.

Eles tiveram casos, encontros e masturbações suficientes para crerem conhecer o próprio desejo e com ele se conciliar.

Contudo, talvez seja este o problema. Não se trata de autoconhecimento, mas de uma racionalização de si que negligencia ou reprime parcialmente as vontades e desejos. Reprimidos, eles retornam sob uma forma diferente e influenciam o curso da vida dos personagens. Assim, os personagens não se relacionam satisfatoriamente com o ambiente e consigo mesmas. Também não ajuda o fato de viverem em uma época de excesso de informação e solidão.

Assim, Emiliano associa sexo a agressividade, tem fantasias violentas com frequência e arregaça uma máquina de lavar. Duque não sabia lidar com o fato de gostar do amigo. Antero é egocêntrico, tem várias parceiras e problemas no casamento. Aurora vive angustiada pensando no fim do mundo, busca contato íntimo se exibindo na webcam para estranhos anônimos e transa por desespero.

Talvez o próprio desejo seja insaciável e estejamos condenados a uma perene negociação com ele, firmando acordos fatalmente desrespeitados. Uma dívida que sempre volta.

Para mim, a ideia central do livro está sintetizada no trecho abaixo em que Francine conversa com Emiliano:

“Tem coisas que a gente quer viver e nunca vive. Porque não pode, porque não se permite. Essas coisas são monstrinhos criados no porão. Eles crescem. Murcham. Se deformam. Não se pode saber o que o porão vai fazer com eles. Mas ficam lá. A única coisa que não acontece com o monstrinho é sumir. Enquanto vivemos, ele vive.”







Sei que o “monstrinho no porão” pode ser os anseios em geral, e não apenas o sexual. Mas, o conjunto da obra pareceu-me tratar do desafio de estar vivo e lidar com as necessidades do corpo, sendo a mais crucial e angustiante o sexo, que atormenta os personagens. Estes são os desejos que mais costumam ser barrados, “porque não pode, porque não se permite”.

Enfim, gostei do livro. É sucinto e certeiro e, na minha opinião, trata de temas essenciais com maturidade.

Então, pessoal, gostaram do vídeo? Deixem seu like, se inscrevam no canal!







Monday, May 30, 2011

Call Of Duty Black Ops




Olá, amigos da Internet. Depois de vagar por aí como se estivesse meditando num deserto, mas sem meditar de verdade e passando os olhos por sites desprovidos de utilidade e de qualquer aspecto causador de interesse, encontrei um texto que me inspirou a voltar a escrever aqui neste blog. Um texto maravilhoso do site do motim sobre Black Ops, jogo da série Call of Duty conhecida no Brasil como “Call o Dãtchi” (O Chamado do Holandês).

Outro dia, descobri uma coisa muito curiosa. Meu modo de entrar no jogo sempre foi apertar start até aparecer a tela do multiplayer, mas eu descobri por acidente que existe um outro modo em que você não precisa estar conectado. Eu sei que parece difícil de acreditar, mas você pode fazer a prova com qualquer cópia do jogo. Há um modo em que você joga contra outros bonecos que, aparentemente, não estão sendo controlados por outras pessoas, mas sim pelo computador, como costumava ser com os videogames antigos. É engraçado como a experiência muda. Os adversários não ficam escondidos com minas plantadas perto para atirar em quem se atreve a sair para o jogo e correr riscos. Eles simplesmente saem da moita toda hora, é incrível!

Além disto, havia uma história sendo contada, com filminhos entre um mapa e outro em que alguns personagens apareciam falando em inglês americano, ou imitando um sotaque que era para ser russo.

As roupas que cada um dos times usavam, bem como os mapas tinham uma razão de ser. A história se passa na Guerra Fria. Você era um cara americano com uma identidade, um tal de Mason que fica o tempo todo sentado numa cadeira amarrado e sendo interrogado por uns caras que não mostram o rosto. E eles perguntam algumas coisas sobre sua experiência, então você vai se lembrando e a campanha é nesse flashback. Mesmo na lembrança você vai morrendo e dando continue. Acho que também aparece uma mulher e fuma um cigarro e fala umas coisas que eu esqueci.

Outra diferença é que nas fases tem umas partes em que a câmera fica lenta e acontecem algumas explosões ou situações de extremo perigo das quais você sempre escapa por um fio, como costuma acontecer nos filmes e, acredito, não deve acontecer nas guerras.

São situações tensas, ou melhor, como é o estilo de jornalista descolado, bem seguido no site do motim, são situações “pra lá de tensas”. Aliás, uma outra técnica muito recomendada se você quer que as pessoas vejam que você é um profissional, é escrever com elegância, não repetindo a mesma palavra em um curto espaço de tempo. Na segunda vez, você a substitui por um sinônimo que jamais usaria em uma conversa. Por exemplo, se escreveu a palavra filme e logo depois quer se referir a filme de novo, não use filme tão cedo, use algo como “película”. Sempre busque sinônimos que ninguém usa no dia a dia, mesmo que não seja para evitar repetição, por exemplo, ao se referir a um grupo de pessoas, como uma banda, use “trupe”. Deste modo todos vão notar como você é capaz de escrever como se deve. Seu texto, ao ser lido em voz alta, não pode passar nenhuma sensação de espontaneidade. Tem que ficar claro que alguém o fez no jeito profissional de escrever sobre entretenimento.

Se o leitor estiver se divertindo muito com o texto, há algo errado. Você está falando sério, então, via de regra, não pode deixar o leitor rir. Ora, seu texto é um artigo de respeito, não pode ser motivo de riso. Excepcionalmente, você separa seções específicas nele para incluir uma ou outra piada, deixando muito claro quando a brincadeira começa e quando termina. É preciso que haja nitidez nisso, pois seu leitor não pode ficar se perguntando se você fala sério ou não e não vai querer captar um sentido nas entrelinhas de uma frase irônica. Lembre-se, se você não anunciar suas piadas antes, o leitor ficará confuso, e leitor confuso é leitor infeliz. Ele tem que ter a ilusão de que o texto está “acrescentando" algo.

Outra dica muito importante: eduque-se de acordo com o senso comum. O senso comum é um piscinão de valores compartilhados pela maioria. Não é uniforme no mundo inteiro, mas no Brasil tem uma cara bem definida, sendo fácil apontar os critérios aceitáveis de certo e errado que você pode adotar sem medo de ser processado. Por exemplo, veja como isso soa familiar “É importante respeitar as pessoas, não falando mal de seus gostos, interesses e religião”. Outro exemplo “Precisamos ter uma mente aberta para o pluralismo e para a diversidade.”, ou “Há assuntos com os quais não se brinca; antes de fazer piada, certifique-se de que o tema não é delicado”.

Liberdade de expressão é um privilégio, não um direito, então você deve exercê-la com responsabilidade. Imagine que as palavras que você fala ou escreve são facas. Então, se você tiver que apontá-las para as pessoas, que seja com a parte do cabo e cautelosamente. Você esfaquearia alguém? Gostaria que seus filhos fossem esfaqueados? Então seja respeitoso.

São regras de conduta sensatas não são? Então, ao escrever, tome tudo como verdade sabida por todos e apresente suas conclusões e críticas de acordo. Não venha com propostas diferentes de valoração das coisas, pois a cultura brasileira não precisa disso.

Então, voltando ao jogo, eu me pergunto se os Call of Duty anteriores também tinham esse tipo de coisa, esse tal de modo campanha. Meu dedo deve ter escorregado no analógico e partido para esta opção desconhecida. Depois disto, eu decidi parar de comer salgadinho enquanto jogo video game, pois prejudica bastante a precisão.

De todo modo, este review não é sobre o modo campanha. Eu o descobri há muito tempo e até hoje não terminei, pois sempre que vou jogar vou logo ao multiplayer. Então, eu ainda não sei o que acontece com o Mason no final. Eu apenas vou terminar um Call of Duty quando os russos do jogo forem dublados pelo FPSRUSSIA:



Aqui o Dimitri mostra um pouco de vulnerabilidade:


Este também não é um review sobre o multiplayer. Aliás, eu acho muito engraçados estes sites de resenhas de video games. Não há coisa mais supérflua que uma crítica de joguinho.

Ah, mas então você vai dizer “Você não pode dizer que resenhar videogames é inútil, pois muitas pessoas gostam deles e se interessam pelo assunto.”. Sim, mas este não é ponto. Hoje, tudo que você precisa saber sobre qualquer jogo está em algum vídeo de 5 minutos no youtube. Ali você pode ver se gênero, tema e gameplay lhe interessam. Mas cuidado, evite os vídeos que escondem o gameplay e só mostram cutscenes, como se fossem trailer de filme. Estas montagens são feitas para enganar e tem sido cada vez mais usadas, pois o gamer next gen é vulnerável a edição rápida, câmeras lentas, e música épica genérica que cresce e cessa de repente quando aparece na tela a data de lançamento do jogo. Este é o tipo de apresentação que podemos chamar de “Video Kojima”.

Você tem que ver o vídeo gravado durante o jogo mesmo, pois, embora não pareça, o jogo em si é a parte que mais importa. O enredo é completamente secundário. Sério, quem quer saber da história num jogo de pôquer ou de futebol? Jogo que é jogo atrai pelo sistema, regras, desafio e competição. A história é só um pretexto para a ação. No Black Ops tem uma história lá, mas quem se importa? A melhor história de um videogame tem a mesma qualidade da de filmes pipoca medíocres, de gibis e de animes cheios de clichês, então só tendo um mau gosto tremendo para se deixar levar.

O vídeo do youtube dá uma boa ideia também dos controles. Hoje os jogos são todos feitos uns em cima dos outros, então só de olhar você já sente o drama. Não há surpresa na indústria dos games. Por exemplo, esse LA Noire que saiu aí, só de ver dez segundos no youtube já sei como é, já consigo me imaginar jogando. Olha, estou jogando LA Noire, a sensação é a mesma do GTA IV e do Red Dead Redemption.

Tem a questão do video game se tratar de uma diversão típica de crianças, então a comunidade de jovens e adultos que se reúne para tratar do assunto, muitas vezes busca um meio de convencer a si mesma de que não há nada errado em ficar preso a uma coisa infantil. Alguns chegam a afirmar que video games são uma forma de arte. Porque, óbvio, o sujeito não passa horas sentado na frente do console para se divertir como uma criança, ele está é apreciando uma forma de arte.

Tem gente que, quando gosta muito de alguma coisa, mesmo que porcaria, sente muita vontade de elogiar, e fica puto quando alguém critica. Aí qualquer bomba é arte e qualquer profissional razoavelmente competente é gênio.

Mas não, esses joguinhos não são arte. Nada que é produzido em massa, de acordo com leis de mercado e determinado pelo gosto potencial de consumidores pode ser chamado de arte. Quando a principal razão de existência de uma obra não é ela mesma, mas sim lucrar e mover uma indústria, não se trata de arte. Evidente que uma obra artística pode ser comercializada, mas em sua criação, nada pode ficar entre o autor e o resultado. Devem ser livres sua expressão e vontade, limitadas apenas pela técnicas da modalidade artística. Estes jogos encomendados para atender às massas, cedendo a clichês e formulas conhecidamente rentáveis não tem nada de artísticos. Agora só falta falarem que letra de música é literatura.

Tem uma outra cartada ainda, aquela do “pesquisas mostram que videogames ajudam a desenvolver partes do cérebro e blá, blá, blá.”. Deve ter sido alguma pesquisa do instituto Wishful Thinking. Toda atividade repetitiva é treinamento para alguma coisa. Por exemplo, se você senta com as costas encurvadas por muito tempo, você vai acabar dominando essa postura como ninguém. É verdade que no videogame você exercita coordenação e reflexos, além de um mínimo de inteligência para resolver uns probleminhas, mas são coisas que seriam muito mais bem treinadas pela prática de esportes ou leitura de livros. Videogames tomam um tempo desgraçado e tem um alto custo de oportunidade, pois é grande o número de coisas melhores que você deixa de fazer quando está jogando.

Não sei qual o problema em admitir que se joga videogame apenas para fugir da realidade. Apenas porque o estado de espírito depois de jogar é um pouco melhor que aquele anterior. Só diversão. Só alegria, como diria um pagodeiro.

E no caso do Black Ops, há muita diversão no multiplayer. O bicho pega, todo mundo fica escondido por horas para matar facilmente aqueles que saem pro jogo. Todos usam apenas a Famas com red dot, steady aim e ghost perk, para não aparecer no mapa quando liberam um spy plane. O perk second chance é muito comum também, pois permite ao jogador não morrer mesmo que tenha levado vários tiros. Esse é o estilo camper.

Todos instalando minas, escondidos em lugares estratégicos, como janelas, sacadas, atrás de caixas e barris feitos exatamente para isto. É como se os programadores tivessem cedido ao gosto da maior parcela do público, que são campers. Por meio de uma ginástica mental, estas pessoas dizem para si mesmas que estão jogando.

Por hoje é só. Leiam sempre o site do motim, são jovens que escrevem muito profissionalmente sobre arte e entretenimento. Também peço que vejam todos os videos do FPSRussia no Youtube. Ele disse que ganha dinheiro a cada acesso, mas não por celular, apenas pelo computador. Para ilustrar, ele deu um tiro no celular usando um rifle sniper de dentro de um carro.

Fiquem com um vídeo para ajudar vocês a pensarem profundamente sobre qualquer assunto, ou a ficarem intrigados com o universo:

Wednesday, May 12, 2010

Assim Falava Zaratustra - Nietzsche





Você já ouviu falar de Nietzsche, provavelmente de pessoas que nem leram, e você também nem deve ter lido. Talvez você tenha lido e colocado o nome dele no google pra ver o que os miguxos estão dizendo sobre o seu filósofo favorito. Aí você hesitou na hora de escrever o nome, porque não se lembrava direito se tinha z ou s e qual a ordem. Então você pegou o livro e deu uma olhada na capa pra ter certeza, esqueceu e teve de olhar de novo, e até agora você não decorou. E neste caso não dá pra fazer igual na escola que era só inventar um apelido, pois o interessante é mencionar o nome do filósofo (na esperança de que pensem bem de você, ou respeitem sua opinião). Não dá pra simplesmente chamar de bigode, embora fosse muito adequado. Você certamente não seria levado a sério se baseasse um argumento nas ideias do bigode. Alguém vai acabar comentando "achei que o bigode tinha sido preso" e você vai dizer "não, ele já morreu, e creio não estarmos falando da mesma pessoa rsrsrsrs, seu ignorante fdp." Gostou desta introdução? Em que pontos acha que podemos melhorá-la?


Nietzsche numa das três fotos de sempre.


Vou comentar algumas coisas que eu achei interessante. É uma obra em que o simbolismo é muito forte. Começa com o Zaratustra, que é um sábio, descendo da montanha para compartilhar sua sabedoria com os homens. Gosto de pensar nele como um homem de meia idade e de barba grisalha, magro, mas sem ser desnutrido, um desses caras que parecem fracos, mas resistem a tudo. E, claro, vestido com trapos porque tem muito mais graça, é o cara pra quem ninguém liga, que parece um mendigo, mas PLOT TWIST revela-se como grande sábio, um verdadeiro profeta. Porque você sabe, materialismo é ruim e a sabedoria está sempre ao lado da humildade. Tô zoando, na verdade esse livro fala que humildade é coisa de babaca.

Então, o Zaratustra está isolado e descontente com isto. Diz que até o sol precisa de alguém a ser iluminado, então desce (simbólico, sai da frescor da reflexão pra ter com os ignorantes). O livro todo é o Zaratustra vivendo situações simbólicas que expressam bem a filosofia de Nietzsche.

Os animais do Zaratustra são a águia e a serpente. A águia representa a altivez, ser como a águia é voar alto. Significa, principalmente, não ser humilde e orgulhar-se da própria superioridade. A águia fica nas alturas, é sozinha e simboliza o livre pensamento. Outro símbolo frequente é o da árvore solitária no alto da montanha que recebe rajadas violentas de vento frio e refrescante (mais um símbolo para ideias fortes e libertadoras, que devem ser compreendidas como a própria filosofia nietzscheana). É assim que Zaratustra diz que as pessoas devem ser. Mas note o seguinte meu amigo, depois de três posts já entendo poder chamá-lo de amigo; a águia sobrevoa o abismo, mas sempre olha pra baixo. Não cai, mas jamais perde de vista o que está lá, que é a terra, nem mais nem menos. A terra. A árvore solitária, embora vislumbre o céu, também estende suas raízes e segura a terra. A terra representa o conjunto de coisas do ser humano mal rotuladas como repulsivas. O paradoxo está presente o tempo todo na obra de Nietzsche. Para ele, as coisas ruins não passam das coisas mais bem denegridas, então, o tempo todo enaltece os "maus" e denigre os "bons", pois não concorda com a valoração do tempo dele e propõem a transmutação de tudo. Ou seja, foi um Troll. Alegava que os valores estão todos invertidos e que tudo isto se dá, em grande parte , à mentalidade cristã da subserviência. O que é considerado bom e virtuoso é a negação de tudo que é humano, altivo. Peraí, não o que é humano, mas o que deve ser, o que precisa ser segundo ele mesmo, pois é uma filosofia ética. Nietzsche não é um niilista, na verdade, acusa os cristãos de serem por preferirem a vida após a morte, que pra ele seria o nada. Chama-os caluniadores do mundo.

E o que o homem tem que ser para Nietzsche, cujo primeiro nome, aliás, era Friedrich (Ricofrito) é uma ponte para o super homem. Ao contrário do que dizem muitas pessoas que leram resumos, o bigode não se anunciava como um super homem, nem mesmo o Zaratustra se dizia um deles. Ambos acreditavam sim ser homens superiores, serem parte da elite da humanidade, intelectualmente e moralmente (no zaratustra não há uma palavra sobre etnia). Zaratustra é uma ponte para o super homem, coisa que todo homem deveria ser, mas a maioria busca não ser, portando-se como bermudões. O super homem é um ideal; mas um ideal dionisíaco que aponta para a carne, para a terra, o canto, a dança, a criação, a solidão altiva e o orgulho individual e viril. Perceba como a águia tem que pousar na beira do precipício. Notou? Agora pegue a cobra _I_

É o outro animal do zaratustra. A serpente rasteja na terra, é o símbolo da astúcia e da discrição.

Também menciona outro negócio legal, sobre as transformações do espírito. Que fique claro que não é tipo espiritismo, ele fala claramente que a alma é um nome para coisas do corpo. Primeiro o espírito é camelo, porque vaga pelo deserto carregando peso nas costas. Não tem muito mais coisa que um camelo pode fazer não é? Nesta fase reina o tu deves. Depois, deve se transformar em leão, sendo corajoso e feroz, fase em que reina o tu queres e por fim vira criança, cheio de ingenuidade criadora. Sejam criadores filhos da puta! É algo que ele diz toda hora, tirando a parte do filho da puta.

O conceito de vontade de potência é fundamental para entender a obra. Numas partes, que pra mim parecem antecipar um pouco do Freud interpreto que foi formulado o seguinte: a satisfação de ser homem vem do exercício da vontade de potência, que é mover as coisas no sentido da vontade. A vontade de potência seria inata, um impulso natural, que pode ou não ser reprimido (a mentalidade judaico-cristã atuaria no tolhimento). Pedras grandes demais não podem ser movidas, o que gera insatisfação. Uma pedra que não pode ser movida é o passado. Não dá pra mudar. O problema então não seria a falta de força para remover a pedra, mas sim a sua vontade de fazê-lo: basta não querer mudar o passado. Mais que isso, basta querer o passado e desejar que ele se repita para sempre. Isto é aceitar aquilo no qual você se tornou (ou torna a todo instante, considerando Heráclito) e amar a si próprio antes de todas as coisas, celebrar a própria história pessoal. Essa ideia é projetada também para o presente; imagine que a sua vida presente repita-se para sempre... se este pensamento traz alegria ao espírito, significa que você vive bem. Esta é a filosofia do eterno retorno anunciada por zaratustra. Tem um forte efeito psicológico. Amor fati, amar o próprio destino. Se não o quer, mude-o, se não pode mudá-lo aprenda amá-lo.

Como amar o próprio destino? Amando-se a si mesmo e pra isso é necessário saber quem você é. Conhecer a si mesmo é fundamental. Encontrar a si mesmo, é a expressão que ele usa. Chega uma hora em que Zaratustra manda os discípulos pentear macaco, porque não queria repetidores, não queria seguidores. Queria que cada um deles fosse buscar a si próprio, ter pensamentos e ideias genuínas. Para isso precisa percorrer um caminho sofrido e tortuoso na solidão. O que Nietzsche diz é o seguinte: o ensinamento mais válido é o encontra-te a ti mesmo e faça a própria filosofia. Zaratustra não é um sacerdote, não é pastor, nem mesmo profeta. O super homem enunciado não é uma realidade, não é um tipo de homem que realmente vá aparecer (tá legal, isto não é claro, muitos podem interpretar que ele esperava que o super homem surgisse mesmo em algum futuro ae). É um ideal para o qual o homem deve ser a eterna ponte, sempre em ascensão, sempre melhorando no sentido do genuinamente humano, que é o de se afastar da moral do servilismo, da impotência, da igualdade e da humildade. Zaratustra só aceita ser chamado de poeta e admite que poetas são mentirosos. Por conta do estilo, é muitas vezes vago e dúbio, mas não quer, de todo modo, enunciar verdades firmes e precisas. Prefere o caos. É um dançarino alegre, uma estrela cintilante. Certamente, estes epítetos não pareciam gays no séc. XIX.

Não há uma defesa ativa do ateísmo, ele apenas sustenta uma filosofia incompatível com as religiões, em especial o cristianismo. Neste livro tem a frase "Deus está morto". Logo em seguida, acrescenta que, no lugar Dele, coloca-se o Super Homem. Para Nietzsche, Deus não é um bom ideal a ser seguido, não traz uma boa moral para as pessoas, no lugar dele deve ficar o Além Homem sem idolatria, mas como aspiração de crescimento pessoal. Esta é a grande diferença com relação à ética cristã: nesta as pessoas não querem se tornar deuses, seria um pecado, uma blasfêmia. Já o super homem é algo para o qual as pessoas deveriam ser a ponte, um modelo de conduta a ser almejado.

A vontade de potência pode dar a ideia de uma moral auto-permissiva criticável. Claro, pois pra que abaixar a cabeça para quem quer que seja? Para que respeitar os outros, para que colocar qualquer coisa acima dos próprios caprichos e desejos? Ou seja, o que Nietzsche tem a dizer sobre nossa responsabilidade para com os outros seres humanos? Que, tirando o amor da mãe, não há nenhuma. Para Zaratustra, o sentimento mais abominável que existe é o da compaixão, ele prefere ser odiado a ser alvo de piedade. Pois é o reconhecimento da fraqueza e da inferioridade.

Então este sistema pode servir como racionalização para um sociopata praticar seus atos? Sim, e já deve ter se prestado a isto. Só que mal compreendido, pois devemos lembrar que a superioridade para Nietzsche está na erudição, na educação, na iluminação e na argúcia do raciocínio. Ou seja, não é qualquer vontade que mereça ser imposta. "Ando entre fragmentos de homens", nesta parte Zaratustra diz, vejam, aquele homem não passa de uma orelha grande, aquele não passa de um par de olhos, aquele é tão só um nariz e aquele outro é o peixoto (um queixo que anda). Uma pessoa espiritualmente mutilada não pode querer nada que preste mesmo, a realização de sua vontade de potência é uma desgraça, é o domínio dos inferiores, a opressão dos superiores. Não era pois uma questão de prevalência da vontade do mais forte, pois o próprio Nietzsche se dizia vencido pela escuridão da época. Escrevia para leitores futuros.

Mas e a moral? O que diria Nietzsche sobre o imperativo "não faça aos outros o que não quer que seja feito a você?". Nem sei o que ele diria. Suponho que o comentário coerente seria "não cabe um imperativo universal porque pessoas não são iguais, alguns merecem se foder, outros merecem respeito, admiração, proteção e privilégios.". Parece absurdo né. Neste ponto lembro a crítica de Bertrand Russell no História da Filosofia Ocidental: não dá para separar a filosofia ética da filosofia política de Nietzsche. Defende sempre o elitismo, a manutenção de um grupo de privilegiados superiores, não necessariamente da classe política (esta composta por caras estilo Napoleão, que ele venerava. Hitler talvez?), acima do povão, a massa de supérfluos. Supérfluos é o termo que usa Zaratustra. Expendables, que nem no filme do Stallone. Gente que pode ser mandada para a morte mas que, diferente do Stallone, não vai estar adorando.

Ele chama os pregadores da igualdade de tarântulas: seriam pessoas inferiores que, por inveja dos superiores, como ele mesmo, defendem a igualdade de direitos. São aranhas repulsivas e seu veneno é o símbolo do rancor contra todos que são superiores. Rsrsrsrs, Nietzsche era bem cuzaum hein.

Ah, e o tradutor dessa edição foi bem traíra. É Mário Ferreira dos Santos. O cara era filósofo também e traduziu direto do alemão. Esse é o problema. Não, não a tradução ser direta, isso é bom, mas o cara também ser filósofo. Quem disse que, traduzindo um filósofo estrelinha, que muita gente procura, o camarada ia conseguir manter a própria filosofia dentro das calças? Há várias notas de rodapé em que o sujeito faz propaganda dos próprios livros, além de interpretar passagens de um jeito muito tendencioso. Mas o cúmulo são as partes em que pede desculpas por Nietzsche, por exemplo, quando este faz comentários pouco gentis sobre teologia. O que o nosso tradutor diz é que "infelizmente, Nietzsche tinha uma visão equivocada sobre o assunto pois nunca leu as brilhantes obras da escolástica. Se tivesse lido, certamente sua opinião seria diferente." Ora, como se pode saber de uma coisa dessas? Quando lança comentários desairosos contra o cristianismo, o tradutor trata de acudir numa nota que Nietzsche era fãzaço de Jesus, amava muito o cara e queria ser igual a ele e que a birra, na verdade, era só contra Paulo e outros que teriam deturpado a doutrina. Só que o livro que Nietzsche escreveu chama Anticristo e não Anticristão e, pelo que me lembro, nessa obra, os comentários sobre Jesuis não são muito amáveis: seria uma pessoa de hipersensibilidade que não aguentava o confronto e por isso dava a outra face (veio à mente o combo do battletoads, socos martelo e chute com a bota gigante). Noutra parte, diz que Deus aparece na obra do bigode de um jeito fora do usual, no plano cósmico, fingindo que a parte que diz "Deus está morto" não existe. No trecho das tarântulas, esclarece numa nota que as aranhas eram os tiranos, opressores e soldados dos campos de concentração. Que nada! Eram os defensores da igualdade de direitos, como está claro no texto. Desde quando um tradutor tem que ficar dando explicações apologéticas sobre o que o autor escreve? Sei, esta é uma edição comentada, ainda assim, espera-se que os comentários sejam pertinentes à obra, não baseados em suposições sobre a vida do autor, nem contrárias ao teor expresso do livro. Talvez, o real teor dessas notas seja "Não leve a mal senhor censor", já que a tradução foi publicada primeiro em 1957. O mesmo acontece na parte em que Zaratustra fala sobre as mulheres.

Aliás, todos que querem desmerecer a obra do bigode enfatizam essa parte do livro. Porque ele fala das mulheres daquele jeito. O profeta conversa com uma véia e diz algo assim "Vai tratar com mulheres? Não esqueça de levar o chicote" RÉÉÉÉÉDEA! O nosso amigo tradutor e filósofo mais uma vez pede desculpas pelos disparates do autor, meio sem graça numa nota de rodapé, "perdoe-me leitor, é que Nietzsche leu muito Schopenhauer e esse cara era muito grosso com as mulheres, tinha uma opinião totalmente equivocada." Que explicação hein?

Veja o que Schopenhauer achava das mulheres:

Arte



Bertrand Russell, querendo maldizer (ele admite que não gosta e que o bigode tem mais que se ferrar) menciona essa parte no livro dele já citado. Esse livro era pra ser sobre A HISTÓRIA DA FILOSOFIA OCIDENTAL, mas ele vai lá e ignora um monte de aspectos relevantes da obra do bigode e se dedica a esta questão das mulheres que são, tipo, duas páginas na obra dele. Esse Candinha galês do Genuíno YO-YO Russell diz que "ora, Nietzsche bem sabia que nove entre dez mulheres tomariam o chicote das mãos dele, por isso ficava longe delas com a vaidade ferida e fazia comentários pouco amáveis". Amigo, fiquei pasmo quando li isso, parece, sei lá, pessoal.

Parece serião, mas falta seriedade :S

Zuera, a mulher tomou o chicote!!!1

Sabe-se que Nietzsche tinha problemas de saúde, sofria de fortes dores de cabeça, passava longos períodos debilitado, não casou, nem se sabe se teve algum relacionamento (há rumores de que tenha comido a irmã, inclusive com um texto apócrifo contando isso) terminou louco e morreu cedo. Então, muitos críticos tentam atacar a obra por este viés. Alguns afirmam que toda essa história de orgulho, altivez, super homem e vontade de potência eram os delírios de grandeza de um impotente. Tremenda cretinice hein meus amigos, não se põe um morto no divã. Não são pertinentes essas análises psicológicas com base em pesquisas biográficas. Mesmo com um ser vivo na análise é difícil chegar a tantas respostas. A crítica costuma fazer o mesmo com Schopenhauer, citando episódios como o fato de ter empurrado uma véia da escada e ter sido obrigado a pagar pensão pro resto da vida. Dela, pois encontraram uma anotação do Schopenhauer "HASHUASHUASHUA, A VEIA MORREU, TCHAU FARDO".

Arthur Schopenhauer

É fácil entender. Você não vê esse tipo de difamação contra Kant, Hegel, Platão e etc. É que Schopenhauer e Nietzsche são filósofos diferentes: eles irritam, incomodam. Schopenhauer é sarcástico, agressivo e pancadão, Nietzsche filosofava com o martelo CRASH!!1 era pouco amável com Deus, Jesus e seus amigos. Muita gente não gosta. Acha-se inaceitável que uma pessoa possa ser feliz e orgulhosa vivendo e pregando a misatropia solitária: certamente ela é deste modo por estar constrangida por problemas emocionais, sendo sua filosofia uma racionalização para disfarçar limitações e inapetências, pois o "natural" seria ter uma vida socialmente prolífica e, se possível, adorando Deus. O sistema diferente tem que ser patologia psiquiátrica e psicológica. Está certo isso? Ao meu ver, não. Injustificável a tentativa de juntar vida pessoal do autor com sua obra filosófica.

Lembrei-me agora da reflexão de Milan Kundera no começo de A insustentável leveza do ser, baseada no eterno retorno de Nietzsche. Diz que a ideia é contrária à efemeridade de tudo, por exemplo, acontece alguma coisa e você reage. Depois fica pensando, puta que pariu viu eu devia ter feito outra coisa. Você fica pesado. Mas já era, já passou. Muitas coisas são inéditas e para elas não estamos preparados, não temos a chance de fazer reparos. Se a situação retornasse eternamente poderíamos encará-las com mais propriedade. É o que acontece no metal slug 3. Se eu fosse jogar só uma vez logo morreria. Mas aqui existe o eterno retorno, então insert coin, start, soldier select, mission 1, start! eu posso reviver a mesma coisa infinitas vezes até conseguir jogar de um modo satisfatório. O mesmo vale para o battletoads no nes, jamais teria passado fase do carrinho, de desviar das paredes, se não tivesse revivido aquilo muitas vezes. Quando tudo parece adequado na vida, a repetição das experiências positivas (que poderiam ser infinitas que trariam felicidade) tornam tudo mais leve.

Experimentamos o eterno retorno quando estamos tristes. No sofrimento, não costuma fazer diferença saber que ele vai passar, ficamos embotados, e o sentimos como se fosse permanente. Poderíamos fazer isso também com as alegrias, mas é bem mais difícil.

Claro que eu destaquei só as partes que eu pensei ter entendido (já li 3 vezes e pretendo futuramente entender). Eu prefiro me ater mais às partes de crescimento pessoal e reversão dos valores morais. Quanto à polêmica de Nietzsche e o nazismo, bom, a filosofia política de Nietzsche serve para validar qualquer oligarquia antidemocrática, além de ser contra o reconhecimento de direitos universais e a favor de justos privilégios para os "melhores". O problema prático é a definição dos melhores, pois inevitavelmente acabam privilegiados os bem nascidos, ou membros de uma determinada etnia, ou pessoas bem relacionadas e não os sábios, eruditos, altivos e valorosos da elite de Nietzsche. Mas discordo de Russell quando diz que não dá pra separar a filosofia ética da política; acho que a filosofia ética de nietzsche falha ao ser transformada em política mas pode sim ser abordada de modo isolado. Quer dizer, não dá pra aplicar às massas, separar todos em superiores e inferiores, qualquer critério será impreciso e injusto. Mas na esfera individual, tudo que Nietzsche disse é válido, os critérios de triunfo da vontade são absolutamente aplicáveis no tribunal da consciência, na disciplina das próprias ações e na descoberta de si mesmo. Além disso, ninguém até hoje abordou tais temas com a mesma contundência, brilhantismo e qualidade literária. Mas não sou um estudioso de Nietzsche, então talvez eu tenha tirado isso tudo da minha cabeça. Um abração a todos.

Altivez


Monday, May 10, 2010

Tenho o plano de preparar um conjunto de contos e tentar publicá-los. Muitos deles estão no meu outro blog: http://monte-de-palavras.blogspot.com/ . Só estou postando isso porque pensei agora num título extraordinário: OCUPADO DEMAIS PARA AMAR. Vai ser esse o título do livro. O problema é que, revendo os contos, o título não guarda pertinência com nenhum. Acho que não interessa, vai ser esse mesmo. Não copiem.

Ah sim, não abandonei o blog. Estou preparando mais um post, será sobre o bigode. Agora jogarei Super Street Fighter IV e/ou Fifa Soccer. Abração.

Monday, March 22, 2010

LIGHT IN AUGUST - FAULKNER


Com o selo da Oprah é o que vale

Acabei de comer um monte de chocolate branco de uma vez e mandar um golão de coca-cola. Confesso que fiquei surpreso com o sabor da coca, pois parecia qualquer outra coisa. Algo amargo, que não quero voltar a beber. Mas nada disso tem a ver com o post de hoje. Pra falar a verdade, até tem, e isso vai ficar claro conforme eu ir lhes contando sobre esse maravilhoso livro cuja capa enfeita a tela do seu monitor. Uma das grandes virtudes da edição que lhes apresento, e isto eu prometo que me ouvirão repetir outras vezes, é o fato dela trazer o selo do Oprah's book club. O da Oprah é o que vale e ontem mesmo já comprei o The Sound and The Fury, também do Faulkner, com o selo do clube da Oprah.

Oprah's Book Club


Com certeza um dos melhores livros que eu li até este momento do ano. É intenso, os personagens são fortes e inesquecíveis. Faulkner te coloca dentro da cabeça deles por tempo demais, e não vou dizer que você sai da experiência marcado, porque é o tipo de coisa que gente besta falaria. É só um livro. Mas é um livro diferente. Um pouco de contexto pra vocês: a história se passa no sul dos EUA, pouco depois da guerra civil. Dizem que, de todos os livros dele, este é o que aborda com mais contundência o tema do racismo. Se é verdade eu não sei, mas que rola altas discriminações na história é incontestável. Toda hora é nigger pra cá e nigger pra lá. Pra vocês terem uma ideia, um dos personagens, Joe Christmas, tem a pele um pouco mais escura que a média. Não chega a ser negro. Mas em todos os momentos da vida dele, percebem que ele tem um pouco de sangue negro, aí é nigger pra cá e nigger pra lá toda hora. A ascendência negra é uma doença no livro, a mera desconfiança já faz o status do cara despencar, uma verdadeira maldição. E sério, a vida dele é contada desde criança no orfanato. Quando ele testemunha uma empregada de lá dando prum cara, ela fica com medo dele usar isso contra ela (achando que um menino de 5 anos agiria como adulto) e começa a aprontar pra cima dele. Percebe as crianças no pátio gritando direto NIGGER-NIGGER-NIGGER e dá um jeito do assunto vir à tona com a diretoria. Quando descobrem que ele pode ter algo de negro, eles não tem alternativa a não ser mandá-lo para um depósito de crioulos. Veja como as coisas são! Depois, ele é adotado por um homem muito cristão e violento, que arrebenta ele de porrada todos os dias, qualquer hora é hora. O livro mostra muito bem como tudo isto afetou Joe Christmas, porque te coloca lá dentro da cabeça dele, você é testemunha de seus pensamentos, e tudo que lhe resta é lamentar o fato do personagem ter ficado tão embrutecido :( . O raciocínio dele é todo deformado, sempre reage com violência às mulheres e indiferença aos homens. De tanto apanhar, tornou-se um cara perigoso, e passa uma boa parte do livro fugindo. Mas não tem muita tenacidade nesta fuga. Perambula, resistindo a quem tenta pegá-lo, inclusive bate num velho e arrebenta o pé do banco de igreja na cabeça dum negão. É fuga sem afobação, sem medo de ser pego, sem vontade de se esconder. Parece um animal.

Tem outros personagens muito bons também. Lena Grove é uma grávida que sai pegando carona do Alabama ao Mississipi (não sei se é longe, mas no livro parece que é) em busca do pai do filho dela. O cara sumiu, mas ela não acredita ter sido abandonada. A mulher é muito simples e tenaz, uma excelente personagem, com ótimas falas. O pai é Lucas Bunch que acaba virando amigo do Joe Christmas, os dois moram juntos e vendem uísque clandestino. Esse Lucas é boca grande, covarde e interesseiro. Acaba, é claro, apanhando do Christmas. Outro personagem bacana é o Hightower: era um pastor que passava todos os cultos falando sobre o avô que foi morto na guerra civil e caiu do cavalo. A vida dele girava em torno disto, era uma verdadeira obsessão. Mas aí você entra na cabeça dele, e vê ele criança, afastando-se do pai e aproximando-se do uniforme do avô guardado no meio das tralhas. Os fiéis ficaram de saco cheio dele, porque toda hora queria falar de cavalos e homens levando tiro. Além disso, a esposa dele tinha má fama. Sumia um tempão, não aparecia na igreja e todo mundo ficava comentando. Acabaram dando um jeito de expulsar o pastor, mas ele não saía da cidade, afinal, havia sido naquela região que o avô dele tinha morrido. Ele se isola e vive perto de alguns negros, o que gera mais comentários. Ele contrata um empregado negro e se fode. Ele consegue fazer uma negra dar à luz e se fode. Chegam a dar uma surra nele por ele tratar nego como gente. No presente do livro, ele é um homem velho, pançudo e sábio. A pança é bastante relevante, caso contrário, Faulkner não descreveria toda vez como é mole e balança. Um outro personagem é o Byron Burch, amigo dele e tá sempre atrás de conselhos. Um cara muito bacana e humilde esse Burch, mas começa a mudar quando conhece Lena (a grávida). Arma uma parada pra ficar com ela, apesar da oposição do Hightower.

Enfim, muita coisa acontece nesse livro. Recomendo a leitura no original em inglês, pois o grande lance é o modo de falar do sul dos EUA da época, que é muito bem reproduzido. Coisa que eu sei mesmo sem ter a menor ideia de como as pessoas falavam naquela região. Outra vantagem de ler no original é o preço: paguei a metade do que custa a edição nacional da cosac naify, véi. E lembre-se, se for comprar o original, não se esqueça de procurar pelo selo da Oprah.


Tó. Aprecie a arte.


William Faulkner


Deixo para vocês a tradução da sinopse pelo tradutor do google:
"Luz em Agosto, um romance sobre a perseverança de esperança no mais cara de mortalidade, apresenta alguns dos Faulkner personagens memoráveis: sincero, destemido Lena Grove, em busca do pai de seu filho por nascer; reverendo Gail Hightower, que é atormentado por visões do confederadas Cavaleiros, e Joe Christmas, um vagabundo, desesperados enigmático consumidos pela sua ascendência mista."

Sunday, March 21, 2010

O PROCESSO - KAFKA


Se fosse da panini, custaria 100 reais só pela capa dura com detalhes dourados!


O livro conta a história de josef k., um procurador de banco que é processado por algum crime aí. Ele acorda um dia com a polícia na casa dele, informando que ele tava detido. Mas não levam preso nem nada, apenas conversam um pouco; um investigador e dois guardas, além de três testemunhas que trabalhavam no banco. O papo, como acontece toda hora no livro, não leva a nada. São duas coisas que acontecem todo tempo: as pessoas da Justiça não esclarecem nada, não sabem de nada sobre o processo e K. Também não pergunta direito. No começo ele tem uma atitude extremamente displicente e orgulhosa, comparece ao fórum para o interrogatório, mas ao invés de se concentrar no caso, faz críticas genéricas à justiça. Acusa todo mundo de corrupção e inflama uma platéia que ele não sabe porque está lá. Tem várias situações surreais, a audiência é no domingo e as secretarias da Justiça ficam em prédios residenciais em bairros toscos. Uma referência comum a esse livro é pelo uso da expressão "processo kafkiano": é o processo que tem as seguintes características: é totalmente sigiloso, a pessoa não sabe do que é acusada. O rito não é definido, sendo que as autoridades podem surpreender o acusado como bem entenderem. Os funcionários que tem contato com o acusado não sabem do que se trata o processo e acabam não ajudando em nada. O advogado é supérfluo, pois não lhe é dado um papel processual oficial. Tudo que ele faz é trabalho de bastidores, tráfico de influência. Então, “não sei o que está acontecendo, e o que se seguirá provavelmente será ruim! Mal consigo respirar!”. Esse é o jeitão do livro de kafka. O personagem está preso numa teia. Parece que, quanto mais ajuda procura, mais se enrola; o advogado diz uma coisa, outros acusados dizem outra, até o cara que pinta retrato de juízes ele procura, e as soluções que ele oferece são desanimadoras e incertas. Também conversa com o chapelão do cárcere e nessa parte fica claro um aspecto: um processo injusto é o resultado combinado dos esforços da justiça e do próprio acusado. Então, as consequencias para o personagem decorrem em parte da própria atitude dele, o que não quer dizer que seja culpado. K não faz a menor ideia do que pode estar sendo acusado, nem desconfia se algo que ele tenha feito possa ser considerado crime (a primeira frase do livro o inocenta: "Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã." Pra se defender, ele pensa em contar a história inteira de sua vida. Ou seja, no processo de kafka, a defesa é inviabilizada. Não só pela falta de regras processuais claras, mas pelo próprio caráter do personagem. A narrativa tem dois planos: o julgamento de K não é só jurídico, a situação toda exprime um sentimento pessoal de opressão, de estar impotente sob o jugo da tirania. Neste pano de fundo, o crime de Josef K é estar vivo, e só há uma sentença possível para quem comete este crime. Este tom é algo fundamental no livro e um traço bem característico do autor. (Atenção! Não leia o texto da foto abaixo! Tem spoiler!)

Olha aí, só 105 cruzeiros! vai perder essa? COMPRE JÁ O SEU! ... TERMINEI A PIADA, DESLIGA AÍ O CAPSLOCK, NEGRITO E FONTE GRANDE, POR FAVOR. Agora sim. A edição que eu peguei é da Abril, de 1979, tradução de Torrieri Guimarães (não sei quem é, mas tem que falar o nome porque se eu entendi o livro errado só pode ser por culpa desse tradutor ae. Eu gostaria de saber alemão, mas tenho preguiça, porque parece muito difícil, acho que desistiria, além dos cursos serem caros. E você? O que pensa sobre isso?).


Cuidado com essa edição!!! Logo no começo do livro, no resumo da vida do autor, TEM SPOILER! Está avisado. Se, por algum motivo, você voltar para 1979, não compre esta edição. Subtraí da estante do meu pai em 2003, deixei escondido no meu armário e demorei para ler, pois tenho estado ocupado com outros assuntos importantes como zerar Mass Effect 1 e 2 três vezes cada. Confesso ainda que esqueci que tinha o livro. Achei por acaso no meio de mangás pornôs e tive de passar um pano úmido para tirar a terra da capa. Colocaria a foto do pano, mas infelizmente já lavei, e não faria mais sentido.


Essa aí é a primeira página. Veja que o narrador já começa falando que o processo deve ter começado por calúnia. Como vocês podem ler, O DESJEJUM de K (como em "O DESJEJUM DO CHAVES") estava atrasado, o que era estranho, então ele resolveu esperar um "POUCOCHINHO". Porra Torrieri! Poucochinho? Será que não tinha palavra melhor? Poucoshinhu! Eu jamais escreveria ou usaria essa palavra numa conversa. E vocês, meus amigos, o que acham sobre essa questão?



ATENÇÃO! NÃO LEIA O TEXTO DA FOTO! TEM SPOILER! Estou pondo esta só para que vocês apreciem a cara de paisagem do Kafka.


PORRA KAFKA! Não terminou de escrever o capítulo! O advogado malandrão estava tentando convencer K de que sua ajuda era fundamental. O modo de fazer isso era humilhando um outro cliente, um comerciante que achava um advogado um inútil, mas tinha medo de dispensar. Na sequência, saberíamos como K mandou o papo reto e dispensou o advogado, mas... "este capítulo não foi concluído". Se eu fosse o editor, certamente acrescentaria um :( ao fim da nota de rodapé.

Resumo do post: Leia Kafka. É excelente.

Estou pensando em complementar o post com uma leitura dramática de algum trecho do livro. Vou ver se descubro como faz, e talvez aconteça. Porque não devo falar que vou fazer e depois não fazer nada, quando fala que vai fazer alguma coisa tem que fazer mesmo. Enriqueceria muito o post e nada mais seria como antes.

Um abraço!