Monday, March 22, 2010

LIGHT IN AUGUST - FAULKNER


Com o selo da Oprah é o que vale

Acabei de comer um monte de chocolate branco de uma vez e mandar um golão de coca-cola. Confesso que fiquei surpreso com o sabor da coca, pois parecia qualquer outra coisa. Algo amargo, que não quero voltar a beber. Mas nada disso tem a ver com o post de hoje. Pra falar a verdade, até tem, e isso vai ficar claro conforme eu ir lhes contando sobre esse maravilhoso livro cuja capa enfeita a tela do seu monitor. Uma das grandes virtudes da edição que lhes apresento, e isto eu prometo que me ouvirão repetir outras vezes, é o fato dela trazer o selo do Oprah's book club. O da Oprah é o que vale e ontem mesmo já comprei o The Sound and The Fury, também do Faulkner, com o selo do clube da Oprah.

Oprah's Book Club


Com certeza um dos melhores livros que eu li até este momento do ano. É intenso, os personagens são fortes e inesquecíveis. Faulkner te coloca dentro da cabeça deles por tempo demais, e não vou dizer que você sai da experiência marcado, porque é o tipo de coisa que gente besta falaria. É só um livro. Mas é um livro diferente. Um pouco de contexto pra vocês: a história se passa no sul dos EUA, pouco depois da guerra civil. Dizem que, de todos os livros dele, este é o que aborda com mais contundência o tema do racismo. Se é verdade eu não sei, mas que rola altas discriminações na história é incontestável. Toda hora é nigger pra cá e nigger pra lá. Pra vocês terem uma ideia, um dos personagens, Joe Christmas, tem a pele um pouco mais escura que a média. Não chega a ser negro. Mas em todos os momentos da vida dele, percebem que ele tem um pouco de sangue negro, aí é nigger pra cá e nigger pra lá toda hora. A ascendência negra é uma doença no livro, a mera desconfiança já faz o status do cara despencar, uma verdadeira maldição. E sério, a vida dele é contada desde criança no orfanato. Quando ele testemunha uma empregada de lá dando prum cara, ela fica com medo dele usar isso contra ela (achando que um menino de 5 anos agiria como adulto) e começa a aprontar pra cima dele. Percebe as crianças no pátio gritando direto NIGGER-NIGGER-NIGGER e dá um jeito do assunto vir à tona com a diretoria. Quando descobrem que ele pode ter algo de negro, eles não tem alternativa a não ser mandá-lo para um depósito de crioulos. Veja como as coisas são! Depois, ele é adotado por um homem muito cristão e violento, que arrebenta ele de porrada todos os dias, qualquer hora é hora. O livro mostra muito bem como tudo isto afetou Joe Christmas, porque te coloca lá dentro da cabeça dele, você é testemunha de seus pensamentos, e tudo que lhe resta é lamentar o fato do personagem ter ficado tão embrutecido :( . O raciocínio dele é todo deformado, sempre reage com violência às mulheres e indiferença aos homens. De tanto apanhar, tornou-se um cara perigoso, e passa uma boa parte do livro fugindo. Mas não tem muita tenacidade nesta fuga. Perambula, resistindo a quem tenta pegá-lo, inclusive bate num velho e arrebenta o pé do banco de igreja na cabeça dum negão. É fuga sem afobação, sem medo de ser pego, sem vontade de se esconder. Parece um animal.

Tem outros personagens muito bons também. Lena Grove é uma grávida que sai pegando carona do Alabama ao Mississipi (não sei se é longe, mas no livro parece que é) em busca do pai do filho dela. O cara sumiu, mas ela não acredita ter sido abandonada. A mulher é muito simples e tenaz, uma excelente personagem, com ótimas falas. O pai é Lucas Bunch que acaba virando amigo do Joe Christmas, os dois moram juntos e vendem uísque clandestino. Esse Lucas é boca grande, covarde e interesseiro. Acaba, é claro, apanhando do Christmas. Outro personagem bacana é o Hightower: era um pastor que passava todos os cultos falando sobre o avô que foi morto na guerra civil e caiu do cavalo. A vida dele girava em torno disto, era uma verdadeira obsessão. Mas aí você entra na cabeça dele, e vê ele criança, afastando-se do pai e aproximando-se do uniforme do avô guardado no meio das tralhas. Os fiéis ficaram de saco cheio dele, porque toda hora queria falar de cavalos e homens levando tiro. Além disso, a esposa dele tinha má fama. Sumia um tempão, não aparecia na igreja e todo mundo ficava comentando. Acabaram dando um jeito de expulsar o pastor, mas ele não saía da cidade, afinal, havia sido naquela região que o avô dele tinha morrido. Ele se isola e vive perto de alguns negros, o que gera mais comentários. Ele contrata um empregado negro e se fode. Ele consegue fazer uma negra dar à luz e se fode. Chegam a dar uma surra nele por ele tratar nego como gente. No presente do livro, ele é um homem velho, pançudo e sábio. A pança é bastante relevante, caso contrário, Faulkner não descreveria toda vez como é mole e balança. Um outro personagem é o Byron Burch, amigo dele e tá sempre atrás de conselhos. Um cara muito bacana e humilde esse Burch, mas começa a mudar quando conhece Lena (a grávida). Arma uma parada pra ficar com ela, apesar da oposição do Hightower.

Enfim, muita coisa acontece nesse livro. Recomendo a leitura no original em inglês, pois o grande lance é o modo de falar do sul dos EUA da época, que é muito bem reproduzido. Coisa que eu sei mesmo sem ter a menor ideia de como as pessoas falavam naquela região. Outra vantagem de ler no original é o preço: paguei a metade do que custa a edição nacional da cosac naify, véi. E lembre-se, se for comprar o original, não se esqueça de procurar pelo selo da Oprah.


Tó. Aprecie a arte.


William Faulkner


Deixo para vocês a tradução da sinopse pelo tradutor do google:
"Luz em Agosto, um romance sobre a perseverança de esperança no mais cara de mortalidade, apresenta alguns dos Faulkner personagens memoráveis: sincero, destemido Lena Grove, em busca do pai de seu filho por nascer; reverendo Gail Hightower, que é atormentado por visões do confederadas Cavaleiros, e Joe Christmas, um vagabundo, desesperados enigmático consumidos pela sua ascendência mista."

Sunday, March 21, 2010

O PROCESSO - KAFKA


Se fosse da panini, custaria 100 reais só pela capa dura com detalhes dourados!


O livro conta a história de josef k., um procurador de banco que é processado por algum crime aí. Ele acorda um dia com a polícia na casa dele, informando que ele tava detido. Mas não levam preso nem nada, apenas conversam um pouco; um investigador e dois guardas, além de três testemunhas que trabalhavam no banco. O papo, como acontece toda hora no livro, não leva a nada. São duas coisas que acontecem todo tempo: as pessoas da Justiça não esclarecem nada, não sabem de nada sobre o processo e K. Também não pergunta direito. No começo ele tem uma atitude extremamente displicente e orgulhosa, comparece ao fórum para o interrogatório, mas ao invés de se concentrar no caso, faz críticas genéricas à justiça. Acusa todo mundo de corrupção e inflama uma platéia que ele não sabe porque está lá. Tem várias situações surreais, a audiência é no domingo e as secretarias da Justiça ficam em prédios residenciais em bairros toscos. Uma referência comum a esse livro é pelo uso da expressão "processo kafkiano": é o processo que tem as seguintes características: é totalmente sigiloso, a pessoa não sabe do que é acusada. O rito não é definido, sendo que as autoridades podem surpreender o acusado como bem entenderem. Os funcionários que tem contato com o acusado não sabem do que se trata o processo e acabam não ajudando em nada. O advogado é supérfluo, pois não lhe é dado um papel processual oficial. Tudo que ele faz é trabalho de bastidores, tráfico de influência. Então, “não sei o que está acontecendo, e o que se seguirá provavelmente será ruim! Mal consigo respirar!”. Esse é o jeitão do livro de kafka. O personagem está preso numa teia. Parece que, quanto mais ajuda procura, mais se enrola; o advogado diz uma coisa, outros acusados dizem outra, até o cara que pinta retrato de juízes ele procura, e as soluções que ele oferece são desanimadoras e incertas. Também conversa com o chapelão do cárcere e nessa parte fica claro um aspecto: um processo injusto é o resultado combinado dos esforços da justiça e do próprio acusado. Então, as consequencias para o personagem decorrem em parte da própria atitude dele, o que não quer dizer que seja culpado. K não faz a menor ideia do que pode estar sendo acusado, nem desconfia se algo que ele tenha feito possa ser considerado crime (a primeira frase do livro o inocenta: "Alguém devia ter caluniado a Josef K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manhã." Pra se defender, ele pensa em contar a história inteira de sua vida. Ou seja, no processo de kafka, a defesa é inviabilizada. Não só pela falta de regras processuais claras, mas pelo próprio caráter do personagem. A narrativa tem dois planos: o julgamento de K não é só jurídico, a situação toda exprime um sentimento pessoal de opressão, de estar impotente sob o jugo da tirania. Neste pano de fundo, o crime de Josef K é estar vivo, e só há uma sentença possível para quem comete este crime. Este tom é algo fundamental no livro e um traço bem característico do autor. (Atenção! Não leia o texto da foto abaixo! Tem spoiler!)

Olha aí, só 105 cruzeiros! vai perder essa? COMPRE JÁ O SEU! ... TERMINEI A PIADA, DESLIGA AÍ O CAPSLOCK, NEGRITO E FONTE GRANDE, POR FAVOR. Agora sim. A edição que eu peguei é da Abril, de 1979, tradução de Torrieri Guimarães (não sei quem é, mas tem que falar o nome porque se eu entendi o livro errado só pode ser por culpa desse tradutor ae. Eu gostaria de saber alemão, mas tenho preguiça, porque parece muito difícil, acho que desistiria, além dos cursos serem caros. E você? O que pensa sobre isso?).


Cuidado com essa edição!!! Logo no começo do livro, no resumo da vida do autor, TEM SPOILER! Está avisado. Se, por algum motivo, você voltar para 1979, não compre esta edição. Subtraí da estante do meu pai em 2003, deixei escondido no meu armário e demorei para ler, pois tenho estado ocupado com outros assuntos importantes como zerar Mass Effect 1 e 2 três vezes cada. Confesso ainda que esqueci que tinha o livro. Achei por acaso no meio de mangás pornôs e tive de passar um pano úmido para tirar a terra da capa. Colocaria a foto do pano, mas infelizmente já lavei, e não faria mais sentido.


Essa aí é a primeira página. Veja que o narrador já começa falando que o processo deve ter começado por calúnia. Como vocês podem ler, O DESJEJUM de K (como em "O DESJEJUM DO CHAVES") estava atrasado, o que era estranho, então ele resolveu esperar um "POUCOCHINHO". Porra Torrieri! Poucochinho? Será que não tinha palavra melhor? Poucoshinhu! Eu jamais escreveria ou usaria essa palavra numa conversa. E vocês, meus amigos, o que acham sobre essa questão?



ATENÇÃO! NÃO LEIA O TEXTO DA FOTO! TEM SPOILER! Estou pondo esta só para que vocês apreciem a cara de paisagem do Kafka.


PORRA KAFKA! Não terminou de escrever o capítulo! O advogado malandrão estava tentando convencer K de que sua ajuda era fundamental. O modo de fazer isso era humilhando um outro cliente, um comerciante que achava um advogado um inútil, mas tinha medo de dispensar. Na sequência, saberíamos como K mandou o papo reto e dispensou o advogado, mas... "este capítulo não foi concluído". Se eu fosse o editor, certamente acrescentaria um :( ao fim da nota de rodapé.

Resumo do post: Leia Kafka. É excelente.

Estou pensando em complementar o post com uma leitura dramática de algum trecho do livro. Vou ver se descubro como faz, e talvez aconteça. Porque não devo falar que vou fazer e depois não fazer nada, quando fala que vai fazer alguma coisa tem que fazer mesmo. Enriqueceria muito o post e nada mais seria como antes.

Um abraço!